António Zambujo
Palco Cerca
22 de Junho de 2011
Quando um dos maiores nomes da música de todo o mundo dos últimos cinquenta anos, Caetano Veloso, diz no seu blog de um colega de ofício: “quero ouvir mais, mais vezes, mais fundo (...) É de arrepiar e fazer chorar». E quando acrescenta, dando nome à música de quem está a falar -- “...o que se ouve em Zambujo é algo já que vai mais fundo. É um jovem cantor de fado que, intensificando mais a tradição do que muitos de seus contemporâneos, faz pensar em João Gilberto e em tudo que veio à música brasileira por causa dele” – é bom que se dê atenção ao que diz o mestre da música brasileira. Não que António Zambujo precise de muitas bênçãos exteriores, mas sim porque esta não é uma bênção qualquer porque vinda de um artista que soube beber nas sua música as influências das músicas da sua terra – a bossa nova, o samba, as batucadas da Bahia, etc, etc… -- e as influências externas – rock, soul, funk, música africana e até… fado – para ajudar a criar um género novo, o tropicalismo.
E, tal como Caetano no Brasil, também António Zambujo, em Portugal, tem contribuído para que o fado, o fado que ele canta, nunca se feche nas paredes do fado clássico, mas antes se abra a muitas outras músicas. Na música de Zambujo, que já se estende por quatro álbuns – “O Mesmo Fado” (2002), “Por Meu Cante” (2004), “Outro Sentido” (2007) e “Guia” (2010) --, está lá sempre o fado de Lisboa, sim, mas também a sua versão coimbrã, uma forte presença dos cantares polifónicos alentejanos e a sua abertura a músicas de outras paragens, nunca escondendo o seu amor por Jacques Brel, pela música brasileira ou até pelo mistério que se esconde nas vozes búlgaras (o grupo feminino Angelite, aliás, colaborou com ele em “Outro Sentido”). Ou, até, pelo mistério que se esconde noutras vozes: ao longo de toda a sua carreira, Zambujo, cá e lá fora, já viu a sua voz única ser comparada, mais do que a de outros fadistas, à de… Caetano Veloso (pois, o mesmo), Brel, Chet Baker ou até Devendra Banhart ou Antony Hagerty (de Antony and The Johnsons).
Um pouco de história, só para contextualizar as ideias soltas dos primeiros dois parágrafos: António Zambujo nasceu em Beja, em 1975, e o seu primeiro amor foi o clarinete, que começou a estudar com apenas 8 anos. Mas a sua paixão pelo fado – principalmente pelas vozes de Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha, Alfredo Marceneiro, João Ferreira Rosa e Max – também vem de longe. Quando chega a Lisboa, Zambujo começou por tocar viola – ainda o faz – ao aldo do guitarrista de fado Mário Pacheco. Tendo o fado na voz -- ganhou um concurso quando tinha 16 anos – a sua estreia como cantor no musical “Amália”, de Filipe La Féria, em que interpreta a personagem de Francisco Cruz, primeiro marido de Amália, durante quatro anos. Cantor, viola e já com coragem para se atirar à composição, Zambujo editou o seu primeiro álbum, “O Mesmo Fado”, em 2002.
E a partir daí a sua carreira teve um rumo imparável. Angariando numerosos prémios nacionais e internacionais, tendo um cada vez maior reconhecimento da crítica e uma legião crescente de apreciadores dentro e fora de portas – as suas actuações em variadíssimos países, festivais e o seu êxito na última edição da Womex, em 2010 --, Zambujo cruzou-se ainda criativamente ao longo da última década com nomes como as já referidas Angelite, Os Azeitonas ou ainda recentemente Laurent Filip, para além de um enorme contingente de artistas brasileiros como Roberta Sá, Trio Madeira Brasil, Zé Renato, Ivan Lins. Marcelo Gonçalves, Ronaldo do Bandolim ou Yamandú Costa. E, não por acaso, esta conexão luso-brasileira também deu frutos no seu último álbum, “Guia” – o mesmo que ele vem apresentar ao MED de Loulé --, onde tem como compositores e letristas gente graúda de Portugal, Brasil e Angola: Vinicius de Moraes, Márcio Faraco, Pierre Aderne, Rodrigo Maranhão, Ricardo Cruz, o próprio Zambujo, João Gil, João Monge, Aldina Duarte, José Eduardo Agualusa, Maria do Rosário Pedreira e Pedro Luís, entre outros.